domingo, 31 de julho de 2011

sarraus e borrelhos

A bem dizer, não chove: o céu derrete-se. Silêncio. As terras baixas, atravessadas de regos e de valas onde a água repousa e apodrece, embebem-se ainda mais desta água peneirada que não cessa de cair. Ria cinzenta, céu cinzento, campos alagadiços e uma luz molhada que atravessa as nuvens pegajosas e envolve os seres e as coisas no mesmo tom casto e uniforme. Depois desta série de canais e de charcos estagnados e polidos, na planície baixinha feita com lodo extraído da ria, e com areais do outro lado, onde os sarraus e os borrelhos piam, sob um céu empastado e baixo, encontro-me diante de uma amplidão indefinida, onde a terra e a ria se confundem. Aqui o drama é o da humidade...as névoas têm na ria uma vida extraordinária: cada gota possui uma lama distinta e irisa-se como uma bola de sabão. De forma que não só as figuras se harmonizam com os fundos, mas a todo o momento e à minha vista a paisagem húmida se transforma e muda de aspecto: afasta-se, prolonga-se, não tem fim nem realidade.

A Ria de Aveiro de Raúl Brandão

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